MANUSCRITOS VII

Depois da tempestade

Era madrugada quando o trem me deixou na estação da pequena e charmosa cidade de ruas estreitas, sinuosas, calçadas com pedras seculares e escorregadias em noite de chuva fina. Não gosto de céu sem estrelas. As nuvens me trazem a sensação de estradas e olhares obstruídos. Diferente não é com a verdade, oculta por trás de camadas opacas formadas pelas paixões desvairadas e as ideias empoeiradas da consciência. Eu andava como um aprendiz de equilibrista sob a iluminação precária de antigos lampiões ainda em serviço. Sapatos sobre pedras molhadas formavam uma mistura perigosa; assim como a imaturidade nos leva a derrapar pelas vielas sutis da verdade. Escorregamos pela clareza que não temos.

Avistar a clássica bicicleta de Loureiro, o sapateiro amante dos vinhos tintos e dos livros de filosofia, encostada no poste em frente à oficina, sempre era motivo de alegria. Os horários inusitados de funcionamento furtavam a certeza se eu conseguiria alguns momentos de boa conversa e uma caneca de café fresco até a hora de seguir ao mosteiro para mais um período de estudos. 

Fui recebido com um sorriso sincero e um forte abraço pelo elegante sapateiro, vestido com calça de alfaiataria preta e camisa de linho branco; as mangas estavam dobradas acima do cotovelo para não o atrapalharem ao costurar bolsas e sapatos. Este era o ofício. A arte estava em como tratava todas as pessoas e na mestria de confeccionar ideias desconcertantes e belas. A elegância no trato pessoal consistia na rara mistura da delicadeza das palavras sem qualquer tentativa de negociar com a verdade; embora se mostrasse zeloso ao respeitar limites individuais e as sutilezas necessárias à expressão das verdades; nem todos estão prontos para lidar abertamente com as amarras existenciais; o jeito de abordar e falar é fundamental para não ofender. Um equilíbrio improvável, porém, indispensável. A beleza das suas ideias surgiam através do livre pensar, em uma mente sem fôrmas estanques, impulsionada por um coração sereno e alegre na construção do inimaginável. Dentro e fora do interlocutor. 

Comentei isso com o sapateiro enquanto ele repousava duas canecas de café fumegante sobre o pesado balcão de madeira do atelier. Loureiro negou qualquer mérito: “Apenas ouso a pensar diferente. As falácias populares são uma nefasta espécie de prisão mental. Fixam conceitos construídos por interesses quase nunca justos; ou mesmo, quase sempre rasos. De tanto serem repetidos, acabam emoldurados como se fossem a expressão da verdade. Não são. Na abdicação do livre pensamento, as pessoas permitem que suas escolhas, e por consequência a própria vida, sejam direcionadas por essas fórmulas manipuladoras. Perdem-se de si mesmo e deixam escorrer pelos dedos o melhor dos dias. Ao examinar cada uma delas, não haverá dificuldade para encontrar as mentiras que as alicerçam. Contudo, poucos se permitem essa simples ousadia”.

Antes que eu perguntasse, ele ofereceu alguns exemplos: “Não se mexe em time que está ganhando, cunhada por algum comentarista de futebol para criticar alterações feitas em determinada equipe que perdeu um jogo após uma série de vitórias, essa frase virou um conceito de comportamento. Diante das mais diversas situações, já a ouvi inúmeras vezes; em geral, proferida por pessoas que temem as mudanças ou querem evitar o esforço da transformação. O universo está em constante expansão; tudo muda o tempo todo. Aquilo que não se move será engolido pela evolução cósmica. Inexoravelmente. Assim foi com o motor a vapor, as caravelas, os carburadores dos carros, as válvulas das televisões, as antenas sobre os telhados, os bondes, os discos de vinil, os telefones fixos; a lista é infinita. Assim são com as pessoas e as profissões. Imagine uma jovem datilógrafa, com excelente emprego em meados dos anos 1980, acreditando que não precisaria se mexer, pois teria o seu sustento garantido até a aposentadoria. Afinal, naquele momento, o time dela era ganhador; o mercado de trabalho era farto em ofertas na sua área de atuação. No final da década seguinte essa moça estava desempregada sem nenhuma chance de recolocação; a sua profissão simplesmente tinha desaparecido. Caso não tenha se antecipado aos inerentes movimentos do mundo, enquanto o seu time era vitorioso, sucumbiu em queda vertiginosa como um pássaro que se nega a voar. Esperar perder para começar a se mexer demonstra apreço pela estagnação; caracteriza a perda do passo e do compasso na sintonia com o tempo; uma crença absurda na inércia como estilo de vida. Uma mente aprisionada pelo comodismo ou pelo medo”.

De fato, eu já a tinha usado algumas vezes. Embora as situações fossem diversas, os fundamentos eram os mesmos, confessei. Loureiro expandiu o assunto: “Os fins justificam os meios, um conceito usado por todos aqueles que desejam se esquivar da responsabilidade dos modos e critérios utilizados, que sabem não terem sido justos, para alcançar determinado interesse; usam a frase como um escudo de suposta nobreza para afastar a vileza do método. Um raciocínio tortuoso para explicar os erros e malfeitos, tendo como desculpa a grandeza da finalidade alcançada. Vale salientar que esse conceito surge no famoso tratado de filosofia política da Idade Média, o Príncipe, cuja teoria oferecia argumentos aos desmandos e excessos do Absolutismo, a tirania dos reis e a violência praticada. Maquiavel, autor do livro, e da frase, aconselha à realeza a governar por intermédio do terror e do medo em desprezo a qualquer sentimento de respeito oriundo do povo. O que importava era a manutenção do poder, o fim; a qualquer custo, os meios. Não à toa, o adjetivo maquiavélico virou sinônimo de astúcia, má-fé e oportunismo”. Franziu as sobrancelhas e ponderou: “Quantas vezes negociamos com a verdade na tentativa de alcançar uma nesga de felicidade, um privilégio indevido ou um desejo inconfessável? Mentimos para nós mesmos, no esforço inútil de acreditar que a estrada errada nos levará ao destino certo; como fosse possível fazer o bem se valendo do mal. Quantas vezes agredimos sob a justificativa de que a verdade tem de ser dita, quando em verdade, ela não foi falada para esclarecer ou acolher, mas apenas no intuito inconfessável de ferir? Abdicamos das virtudes e da verdade em troca de prazeres mesquinhos e efêmeros. Desperdiçamos o bom para nos aprazer com o mau”. Deu de ombros e concluiu: “Mas justificamos. Os nossos objetivos são nobres, portanto, capazes de fundamentar o egoísmo dos atos. Precisamos nos convencer que ruim são os outros; insensato é o mundo”.

Eu estava adorando a conversa. Pedi para citar outro exemplo. Loureiro foi generoso: “A voz do povo é a voz de Deus. Trata-se de uma absurda manipulação da opinião pública para calar as vozes dissidentes. Giordano, Copérnico e Galileu tiveram sérios problemas em uma época em que todos tinham certeza de que o Sol de movia em torno da Terra. Era a crença popular, a voz corrente, e da Inquisição, que se arvorava em zelar pelas supostas verdades divinas e absolutas”. Em seguida, mostrou outras situações para mostrar o perigo contido ao se deixar conduzir por absurdo conceito; fez uma pergunta que não precisava de resposta: “Lembra que, diante da oferta de Pilatos, o povo pediu a absolvição de um ladrão e assassino ao mesmo tempo em que exigiu a morte de um grande mestre que se contentava em ensinar o amor, esclarecer sobre a verdade e fazer o bem por onde passava?”. Fez uma pausa antes de prosseguir: “Sem falar nas inúmeras ocasiões em que o povo apoiou apaixonadamente e alçou ao poder dirigentes que fomentaram a guerra, a destruição, a miséria e a fome de várias nações. A História está repleta de fatos. Nada mais enganador do que confundir a voz do povo com a de Deus”.

O dia amanhecia. A conversa merecia outra rodada de café, quando fomos interrompidos por Lineu, um dos sobrinhos de Loureiro. Eu já o conhecia. Era um rapaz no limiar dos trinta anos de idade, formado havia pouco em Medicina, estudioso, dedicado e sensível. Tínhamos a convicção de que com o passar dos anos se tornaria um grande médico. Lineu amava a cura. Cuidava de todos os pacientes com o mesmo carinho e interesse. Era muito estimado no hospital em que trabalhava na metrópole vizinha e atendia a população de toda região no entorno. O rapaz estava com olheiras fundas, típicas de quem não dormira à noite. Os cabelos desgrenhados e a roupa amarrotada demonstravam um visível desequilíbrio. Sem fazer pergunta, o tio o envolveu em caloroso abraço. Com o rosto escondido nos ombros largos do sapateiro, ouvi os soluços de um choro sentido. Acariciando os cabelos do sobrinho, sem pressa e sem palavra, Loureiro esperou as lágrimas secarem. Depois, o sentou ao meu lado enquanto providenciava café para três. Lineu contou o seu drama. Havia dois dias, entrara no hospital um homem em estado grave. O experiente chefe da sua equipe estava ocupado cuidando de outro paciente em situação ainda mais delicada. Na falta de outro médico mais tarimbado, o jovem assumiu o atendimento; após uma análise preliminar, como o caso era de extrema gravidade, decidiu por determinado procedimento. O homem veio a óbito sem demora. Ao retornar, o chefe da equipe constatou que Lineu tomara a uma decisão equivocada, concorrendo para o falecimento do paciente. A direção do hospital suspendeu o jovem das suas funções por tempo indeterminado, havendo ainda risco de demissão. Perante a classe médica estava desmoralizado, afirmou. Sem contar que muitas pessoas tomariam ciência do ocorrido, quando viveria em eterna vergonha e culpa; não sendo descartada a hipótese de se tornar réu em ação judicial movida pela família por erro médico. Quase dez anos dedicados ao estudo da medicina e tudo poderia desabar por causa de uma escolha errada na agonia de salvar uma vida em uma noite desastrosa. Sentia-se arrasado. Contudo, sabia que depois da tempestade vem a bonança, se resignou.

Loureiro me olhou, mas nada comentou sobre a última frase dita pelo sobrinho. Tratou de acalmá-lo, oferecendo orientações e perspectivas sobre os dias que estavam por vir. Embora fosse cuidadoso com as palavras para não agravar o desespero de Lineu, o sapateiro precisava preparar o jovem para os momentos que o aguardavam à frente: “A tempestade não acabou; na realidade, está apenas começando. Acreditar em enganos é viver como um barco à deriva, ao sabor das ondas e das correntezas. Só o acaso para evitar o naufrágio”. Loureiro explicou: “Neste instante, mais do que nunca, você terá de assumir o leme da embarcação para a direcionar ao porto seguro da sua escolha. Assim fazem aqueles que são donos de si, se alinham à própria verdade e se conduzem através das suas virtudes”.

Franziu as sobrancelhas, como fazia ao escalar tons de seriedade, com a mesma serenidade na voz, esclareceu: “Seja humilde, simples, manso e compassivo; acima de tudo, perdoe a si mesmo. Isto o imunizará contra a vergonha. Contudo, não abdique da coragem, da sensatez nem da firmeza. Não transfira responsabilidades. Não negue ou esconda o erro, tampouco o exponha desnecessariamente; do contrário, se sentirá fragilizado por todo tempo. No entanto, estabeleça limites para que não haja abusos; respeite a si mesmo. Você ouvirá insinuações absurdas e palavras maldosas. Sem se permitir afetar por elas, pois, sabe que ouvirá mais das incompreensões daqueles que falam do que sobre você mesmo, olhe nos olhos do interlocutor, sem afronta, mas também sem medo. Responda sempre com calma, clareza e objetividade. Não se alongue demais com explicações desnecessárias, como se tentasse justificar o injustificável; nem seja curto demais para que as respostas não fiquem incompletas, como se estivesse fugindo da verdade e da responsabilidade”.

Bebeu um gole de café e prosseguiu: “Compreenda que essa batalha, para ser vencida no mundo, antes terá de ser vencida dentro de você. Aceite que fez o seu melhor, diante da ausência de médicos mais experientes e na exiguidade de tempo disponível em razão da gravidade do paciente. Você tomou a decisão que naquele momento acreditou acertada. Errou; mas não por desleixo ou imprudência. Errou como só acontece com quem faz escolhas. Assuma consigo próprio o firme compromisso de fazer do erro uma ferramenta de aprendizado e aperfeiçoamento; esta é a perfeita oração de perdão que exime e desmancha a culpa. Se tiver oportunidade, peça perdão à família do falecido. Seja sincero com os seus sentimentos; jamais finja afeição. Não cabe tocar em questões judiciais, mas caso abordem a questão, os deixe à vontade para agirem do jeito que entenderem melhor. Um dia entenderão que isso nada tem a ver com dinheiro”.

Em seguida, pontuou: “Na natureza, depois da tempestade vem a bonança. Sempre. Não se faz necessário nenhum movimento; basta ficar sentado em um cantinho esperando pela inevitável manhã de sol. Simples assim. No entanto, na vida, se ficarmos quietinhos aguardando a bonança, dificilmente ela virá. Na maioria das vezes, ficar somente à espera de dias melhores, sem se mover, costuma prolongar a tempestade por tempo sem fim. Temos de enfrentar a tempestade com as virtudes cabíveis, sem medo nem reclamações. Lembre, de alguma maneira, nem sempre compreensível, fomos nós que a convocamos. Não adianta fugir, ela o alcançará. Lide com a tempestade sem orgulho, vaidade, mentiras nem subterfúgios. Seja virtuoso, a dignidade nos ensina a dançar na chuva”.

E ponderou: “Na vida, a história é outra. A bonança não bate na porta após noites chuvosas e sem estrelas. Temos de ir ao encontro da calmaria, afastar as nuvens, buscar a claridade do verão, as cores da primavera. Não confunda os fenômenos da natureza com as leis da vida. Para encerrar a tempestade se faz necessário construir hoje as manhãs de sol do amanhã”.

Houve um silêncio de prolongados minutos na oficina, até que Lineu balançou a cabeça dizendo que entendia as palavras do tio. Quis saber, na prática, como agir dali por diante. Loureiro foi didático: “Não espere a decisão do hospital por tempo indeterminado; estabeleça um prazo que considere razoável. Depois disto, busque outra clínica ou consultório para exercer o seu ofício. Você estudou e se preparou muito para chegar até aqui. Nada tem o poder de nos derrotar se assim não permitirmos. Não faça isto contigo. Lembre, não apenas os erros, mas os muitos acertos também merecem estar na balança. Confie no que sabe; confie no seu dom de curar; confie em si mesmo. Aprenda com o erro e agradeça; há muito para se ganhar em percepção e sensibilidade se souber lidar com essa experiência. Esta é a razão das tempestades. Então, a vida terá modelado um médico que nem a melhor universidade do mundo poderia formar”.

E concluiu: “No mais, jamais se abandone; nunca se afaste de si mesmo. Ao contrário, aproxime-se da sua verdade e das suas virtudes; são fontes inesgotáveis de força e equilíbrio. Se enfrentar o erro como a um inimigo, ele o derrotará. Trate-o como um mestre; aproveite a oportunidade, evolua com a lição e siga em frente”.

O jovem abaixou a cabeça por um tempo que não sei precisar. Ninguém disse palavra. Ao levantar o rosto, os seus olhos tinham um brilho que não existia quando entrara na oficina. Também havia lágrimas, não de desespero como quando chegou, mas da esperança e da fé regeneradas. Loureiro finalizou: “O poder do movimento está nas suas mãos. Como um perfeito dueto de balé, a vida evolui ao compasso seguinte na medida exata para o próximo passo do bailarino. Em sinfonias inimagináveis, assim acontece a dança da bonança”. 

Lineu se despediu, não sem antes dar um beijo agradecido no rosto do tio. Tinha de ir, uma vida à espera de reconstrução o aguardava. O momento propício para recomeçar sempre será agora, afirmou o jovem médico. O observei saindo da oficina. A tempestade estava apenas no início, mas não tive dúvida de que naquele instante o sol começava a dissipar as nuvens. 

5 comments

Paulo Vitor Alves dos Santos maio 19, 2022 at 9:15 pm

Gratidão, mais uma vez, pela exatidão das lições nos momentos mais necessários.
Muita luz para todos nos🙏🏾

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Márcia Campos maio 22, 2022 at 11:04 am

Sempre nos enriquece seus contos💗

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SCHWEITZER maio 27, 2022 at 3:01 pm

Emocionante, uma aula sobre crescimento e superação.

Amei.

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Terumi maio 30, 2022 at 12:46 am

Gratidão 🙏

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Fernando junho 5, 2022 at 4:07 pm

Gratidão profunda e sem fim Amado irmão das estrelas, sem fim…que saudade que estava do Loureiro 🍀

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